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27 setembro, 2011


Trabalho de Ermelinda Manuel

QUANDO AS CRIANÇAS BRINCAM


Quando as crianças brincam
E eu as ouço brincar,
Qualquer coisa em minha alma
Começa a se alegrar.

E toda aquela infância,
Que não tive me vem,
Numa onda de alegria
Que não foi de ninguém.

Se quem fui é enigma,
E quem serei visão,
Quem sou ao menos sinta
Isto no meu coração.

Fernando Pessoa
5/9/1933

26 abril, 2011

Serena e/ou Sereia

"Apesar das ruínas e da morte
Onde sempre acabou
Cada ilusão

A força dos meus sonhos
É tão forte
Que de tudo renasce a exaltação

E nunca
As minhas mãos
Ficam vazias ! "



Trabalho de Noémia Travassos 90 X 70 cm


Para enunciar este meu trabalho escolhi este poema da autoria da Sophia de Mello Breyner Ansersen e com o qual me identifico em pleno. 

Para ti Sophia, na dimensão cósmica onde te encontras, eu acrescento :

"....Nunca as minhas mãos ficam vazias...."
porque elas amparam um coração
 mais forte e sereno !

Ainda sobre este trabalho, ele é composto por dois elementos:

- uma placa rectangular de 41 X 51 cm e
- um peixe  de 28 X 11 cm, que modelei em pasta de porcelana e posteriormente pintei. Para os efeitos da cauda e barbatanas, utilizei uma rede em aluminío dourado.

Pormenor do peixe
Por fim para enquadrar e assentar todos os elementos, utilizei uma placa texturada em madeira lacada.

Este trabalho vai estar patente ao público na 57ª Exposição da União Portuguesa de Arte em Porcelana no Hotel Mundial em Lisboa, entre 27 e 29 Maio de 2011.

17 abril, 2011

Mãos que pintam a Emoção

" Mãos, gestos de bem-querer

Que afagam o meu mais profundo ser.

Mãos que promovem

E que acolhem.



Trabalho de Ermelinda Manuel

...Mãos poema

Mãos flor de açucena.

Mãos que enxugam,

Mãos de paz, mãos de amor

Mãos que se enrugam

Suportando a dor.



Trabalho de Ermelinda Manuel

Mãos que guiam

Mãos que criam Vida e nos dá Vida.

Mãos fraternas são

As que seguram minhas mãos!… "

Um lindíssimo trabalho da Pintora Ermelinda Manuel, tão docemente emoldurado pela poesia de Libânia Madureira.


08 março, 2011

"Apenas Mulher"

Trabalho de Filomena Alves
 " A Natureza se veste de Luz,
Como lustres de mil velas,
Se embeleza, nos seduz,
Na farandolagem delas …

Não importa que idade tem, ou vai fazer,
O importante é viver a cada instante
Sem se deixar adormecer…

Entregar-se a esta Alegria imensa
De Ser Mulher,
Quer seja no riso, ou no pranto,
Em cada célula do seu Ser,
Mas Intensa Luz de puro espanto.

Sem limite ou queixume,
Na força de se reinventar
Em todo o seu Ser.
Na docilidade, na multiplicidade,

Nesse incomparável perfume
De O Ser e Estar…
A Vida por vezes "a" magoa
Mas nem por isso "a" faz parar
Vai e vem como o vento
Nesta força de se dar,
Nesta voz que ecoa e anuncia,
A chegada do Novo Dia
Sem perdas de tempo.

Porcelana (30 x 40 cm) pintada à mão por Filomena Alves

Nesta força voluntariosa
Com que luta
Sem receio da derrota
Fazendo da Vida uma permuta.

É a força do Ser,
Apenas Mulher!...

Num Ser, em que a Vida se revela
De singular substancia a natureza se modela
Clorofila perfumada e bela
plena de raízes
Singelas cores Divinas de faces purpurinas
De delicadas matizes …"


Poema "Apenas Mulher" da autoria de Libânia Madureira

O meu obrigada a estas duas musas criativas, a pintora Filomena Alves e a poetisa Libânia Madureira, duas amigas que admiro e que tão bem manifestam a intrínseca força divina da mulher verdadeira.

06 setembro, 2010

A Poesia das Moléculas

" Watson e Crick, quando imaginavam a arquitectura do ADN, foram guiados também por princípios estéticos. Como se uma voz lhes murmurasse: “A dupla hélice está certa porque é bonita.” Sei que estou simplificando. Mas as moléculas sabem mais de poesia do que nós podemos imaginar. E as conchas fósseis que há 1200 anos comoveram o chinês Zhu Xi eram ciência escrita em versos.


 Trabalho de Fernanda Amândio -Jarra (lado A) - 33 x 21 cm


O poeta apenas reconheceu o casamento entre beleza e verdade. Afinal, a ciência e a arte são como margens de um mesmo rio.
 A Biologia não é diurna nem nocturna se não se assumir como autora de uma espantosa narração que é o relato da Evolução da Vida.
Podem ter a certeza de que a História da Evolução é tão extraordinária que só pode ser escrita juntando o rigor da Ciência ao fulgor da arte.  

Jarra (lado B) - 33 x 21 cm

A fechar, quero dizer o seguinte: poesia e ciência são entidades que não se podem confundir, mas podem e devem deitar-se na mesma cama. E quando o fizerem espero bem que dispam as velhas camisas de dormir.

Autor do Texto: Mia Couto  in InterInvenções

05 julho, 2010

Fragrâncias de Nós

Neste nosso último privilegiado percurso
Que natureza de encantos sem fim
Pensamentos libertados a levitarem na paisagem
Entre montes e montanhas, rios e riachos
Dispo-me do vão, banho-me na primavera
Das fragrâncias emanadas do teu desabrochar
Espraio-me indolente com um suspiro desobrigado
Libertando-me como ave dominante, pairando adormecida
Holisticamente consciente a protagonizar este agora
Em palco montado, figuração mental de percepção interior …
Aqui, nesta estrada de braços e abraços me sustenho
De corpo aveludado sentido, escorrido em mim
Eis chegado o tempo de prosseguir sem dor nem apegos
Mesmo que toldado por feitura idílica e de alma em desterro
Tenho ânsias de conquista e ergo assertivo a espada da vontade
Pois por entre abrolhos brandidos, a teus pés tudo terás……
Adivinho o porvir, pincelando pensamentos furtivos
Este éden multicolor, de fascínio ardente e imaculado
É catarse de sentires que o tempo a seu tempo despediu
Esvazio-me de pensamentos, atrevo-me no espiritual
Já não sou só senão, energia vital pura em perfeita osmose
Impoluta e inefável neste fadário astral …
E apegado ao sagrado, após epopeia estóica, se me volto
Desta sustentável leveza do meu ser, farei a minha lusitana cetra

Plenamente revivescido nestas fragrâncias de nós
Em deambulado fascínio, e neste apogeu celestial…

Despojado da existência corporal, e agora, apenas ecos da expiação
Sobra-me a essência do que já consegui ser
Assim me vou!

Pintura em porcelana  de Noémia Travassos

Poema em dueto de  Noémia Travassos e GildoNorte

26 abril, 2010

Pierrot

Sou palhaço e pessoa...
Fiz do meu destino divertir
Fazer bem e, fazer rir
Haja Sol ou chuva
Em minha alma peregrina.

Pintura em porcelana de Fernanda Amândio
(frente e verso de Jarra)

No palco do circo ou da vida
Tenho no riso o melhor sequaz
Quando me chegam as penas …
Pinto uma lágrima no canto do olho
E sem que ninguém dê conta
Choro, a rir de mim mesmo….

Sou o Ritraquinas
Oficio todos os dias a alegria,
Porque antes as minhas tristes penas
Que ter pena
daquele rosto triste de criança!
Texto de Noémia Travassos

06 abril, 2010

"ÁGUAS QUE ME AGITAM"


É NESTE NASCER DE MANHÃ LAMPEJADA
DE RAIOS DOURADOS
ESPELHO DE ÁGUAS REFELECTIDAS
BROTADAS, DE TORTUOSAS MONTANHAS
PRISIONEIRAS ACASTELADAS
ESCORRIDAS CRISTALINAS
AGITADAS PURAS LAVADAS
DE LIQUENES ESVERDIADOS TOMBADOS
POISOS ESTIVADOS, ADORMECIDOS

E É NESTE TEU CORRIDO ALUVIADO
DE CASCATAS MONTADAS
EM MURMURIOS FADADOS
DE ESTEIOS VERGADOS
EM ENCANTOS INEBRIOS
POR ALMAS SEDENTAS TOMADOS
EM TORTUOSO LEITO PROCURADAS
POR DESPERTAR PURIFICADAS
EM PARTIDA AINDA ACALENTADA
EM ESPAÇO SIDERAL
DE NUVENS ALUVIADAS MONTADAS
EM VENTOS CORRIDOS LEVADAS
EM MANHÃ DE SOL LAMPEJADAS


Poema da autoria de Gildonorte "ÀGUAS QUE ME AGITAM"
Trabalho em Porcelana de Noémia Travassos

24 julho, 2009

OLHAR PARA ONDE?


Trabalho de Ermelinda Manuel

Captar este delicioso olhar foi um grande desafio.
Com a orientação e incentivo da Noémia fui superando cada dificuldade que ia surgindo.
Foi uma luta fazer tanto pêlo e dar expressividade ao olhar deste belo felino, mas penso que foi superada.
Espero que gostem e convido-os a deliciarem-se com este poema de Fernando Pessoa.
Gato que brincas na rua
Como se fosse na cama,
Invejo a sorte que é tua
Porque nem sorte se chama.

Bom servo das leis fatais
Que regem pedras e gentes,
Que tens instintos gerais
E sentes só o que sentes.


És feliz porque és assim,
Todo o nada que és é teu.
Eu vejo-me e estou sem mim,
Conheço-me e não sou eu.
Fernando Pessoa

01 março, 2009

Um dos meus primeiros trabalhos

É na simplicidade dos tons, na suavidade da viagem e na delicadeza do seu encontro com a terra que as folhas de Outono nos levam a reflectir na beleza de cada fase das nossas vidas.


Trabalho de Ermelinda Manuel

Uma folha solitária no caminho encontrei, peguei nela com carinho e viajando parei.

Envelhecida, sim. Mas nela, como em nós vi e senti, a vontade de viver, a dor da solidão, a força de não desistir da vida mas sim da escuridão.

Com o meu pouco e humilde talento, tentei iluminar a fragilidade da sua simples existência.

26 fevereiro, 2009

Alma e Realidade ... Duas Paisagens Sobrepostas

Ainda sobre a temática do conceito de "Arte", e como forma de apresentação dos trabalhos destas artistas deixo-vos uma reflexão, deveras interessante, de Fernando Pessoa:


" 1 - Em todo o momento de actividade mental acontece em nós um duplo fenómeno de percepção: ao mesmo tempo que temos consciência de um estado de alma, temos diante de nós, impressionando-nos os sentidos que estão virados para o exterior, uma paisagem qualquer, entendendo por paisagem, para conveniência de frases, tudo o que forma o mundo exterior num determinado momento da nossa percepção.

2 - Todo o estado de alma é uma passagem.
Isto é, todo o estado de alma é não só representável por uma paisagem, mas verdadeiramente uma paisagem. Há em nós um espaço interior onde a matéria da nossa vida física se agita.
Assim uma tristeza é um lago morto dentro de nós, uma alegria um dia de sol no nosso espírito. E mesmo que se não queira admitir que todo o estado de alma é uma paisagem, pode ao menos admitir-se que todo o estado de alma se pode representar por uma paisagem.
Se eu disser "Há sol nos meus pensamentos", ninguém compreenderá que os meus pensamentos são tristes.

Trabalho de Filomena Alves

3 - Assim, tendo nós, ao mesmo tempo, consciência do exterior e do nosso espírito, e sendo o nosso espírito uma paisagem, temos ao mesmo tempo consciência de duas paisagens.

Ora, essas paisagens fundem-se, interpenetram-se, de modo que o nosso estado de alma, seja ele qual for, sofre um pouco da paisagem que estamos vendo - num dia de sol uma alma triste não pode estar tão triste como num dia de chuva e, também, a paisagem exterior sofre do nosso estado de alma - é de todos os tempos dizer-se, sobretudo em verso, coisas como que «na ausência da amada o sol não brilha», e outras coisas assim.

Trabalho de Elsa Machado
De maneira que a arte que queira representar bem a realidade terá de a dar através duma representação simultânea da paisagem interior e da paisagem exterior.
Resulta que terá de tentar dar uma intersecção de duas paisagens.
Têm de ser duas paisagens, mas pode ser - não se querendo admitir que um estado de alma é uma paisagem - que se queira simplesmente inter-seccionar um estado de alma (puro e simples sentimento) com a paisagem exterior. [...]"

Fernando Pessoa, in 'Cancioneiro'


22 janeiro, 2009

A ti, Mãe Negra qualquer ...

" Teu rosto retrata a alma sofrida, p´los filhos que deste à vida
vencida à custa do sangue e suor
derramado no pó da estrada da vida, amassado…
Curvada ao peso de imagens roubadas aos teus olhos secos,
de lágrimas choradas,
no silêncio da angústia que te amordaça,
um grito sem voz, um eco que passa ….

A ti, Mãe Branca qualquer…

Alma amarfanhada pelo sofrimento,
olhos baços e loucos de tal tormento
ao veres partir teu filho para uma guerra que dizem ser
p´ra defender sua terra…

Curvada ao peso de lágrimas vazias, de angústias resignadas,
de utopias,
tua vista cansada de dor incontida
contempla um futuro de vida sem vida ….

Trabalho de Noémia Travassos

A ti, Pai qualquer de qualquer cor …

Lágrimas contidas em punhos cerrados, de olhos febris e corações fechados,
Escondendo a dor nas gargantas secas, orgulho esvaído por ruas desertas ….
Caminhos da vida no rosto sulcados, por ruínas de fé e de amor sepultados
Em auroras longínquas de liberdade, esperanças perdidas de paz e verdade…

A todos vós, Mães e Pais de qualquer cor,
que caminharam sós pelo deserto da vida
Separados por dunas de pranto e de dor
e repousam agora em cova esquecida… "



Poema da autoria de: Sílvio Batista (África do Sul)

13 janeiro, 2009

Uma Voz do Brasil

" .....Para ganhar um Ano Novo que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre.

Trabalho de Lourdes Abraços (Vaso persa)
Não precisa fazer lista de boas intenções para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados,
começando pelo direito augusto de viver. "

Trabalho de Lourdes Abraços (D.João IV)

Do Brasil, a nossa amiga Lourdes Abraços enviou-nos estes dois vasos, impregnados da força a que ela já nos habituou nos seus trabalhos de arte.
Emoldurei-os com um poema de Carlos Drumond de Andrade,
aproveitando a sua forma graciosa de usar as palavras, para saudar todos os brasileiros que nos visitam e em simultâneo desejar um ano de 2009 cheio de Arte.

17 novembro, 2008

Aliens´s

Registos da inauguração da Expo"Propriocepção", com a presença dos anfitriões Dr. António Coelho, Vereador da Cultura da Câmara Municipal de Paços de Ferreira, do Dr. Mário Leal, Director do Museu Municipal do Móvel e da pintora Noémia Travassos.




Uma inesperada e linda dissertação sobre a artista e o seu trabalho, pela reconhecida poetisa Estrela Babau.
Uma das peças em exposição da pintora Noémia Travassos.

Esta obra, de face dupla, é um tributo às mulheres "girafa" da tribo Padaung de Mianmar, (hoje em dia refugiadas na Tailândia) e

à tribo Ndebele da África do Sul.

Para ambas as tribos, alongar os seus pescoços com anéis de metal é um símbolo de rara beleza, herdado de antepassados cujos registos..... se perderam nos tempos.

Como é que uma moda tão peculiar aparece em tribos a habitarem em continentes distintos e separados por cerca de 8.000 km ? Será que tentavam imitar alguém? Será que a moda teve origem num único povo, mas que a adversidade apartou ?

Uma questão certamente sem resposta mas que me levou a chamar-lhe "Aliens's ".

07 outubro, 2008

CAVALO BRANCO

Tal como a Elmar (Elsa)
"…
Não tinha o branco, a cor menos usada na minha caixa.
…
Mesmo assim vou enchendo o branco de cores dando formas, criando sonhos e fazendo crescer fantasias …" e prova disso é este meu último trabalho.

A vós que há ± 2 anos me acolhestes e permitistes que eu entrasse na vossa vida, pelo menos 3 horas por semana, dedico não só este trabalho como o pensamento de Charles Chaplin:

"Cada pessoa que passa em nossa vida, passa sozinha, isto porque cada pessoa é única e nenhuma substitui a outra.

Cada pessoa que passa em nossa vida passa sozinha, e não nos deixa só, porque deixa um pouco de si e leva um pouquinho de nós.

Essa é a prova de que as pessoas não se encontram por acaso."

Obrigado pela vossa amizade.

Diamantino Sousa (Didis)

25 setembro, 2008

Paleta de Cores Mágicas

Há palavras que tocam a nossa sensibilidade, que nos enlevam de ternura e que nos mostram que vale a pena viver !

"A caixa renovada do Tino!
A minha caixa de Tintas… A minha paleta de cores!
Entre muitas paixões na minha vida a pintura esteve sempre presente.
Um dia resolvi arranjar uma caixinha de pintura onde não faltasse cor nenhuma e com elas pudesse encher a minha tela ou porcelana de amor e ternura!
Quando a abri pela primeira vez, era como se estivesse a abrir um tesouro!
Olhei-a e vi que tinha todas as cores, cores brilhantes, cores doces e meigas.
O vermelho para pintar a paixão!
O preto para pintar a tristeza e o desgosto que a paixão e o amor por vezes arrastam consigo!
O amarelo para pintar as areias quentes, os girassóis e as rosas!
O laranja para pintar o pôr-do-sol a deitar-se sobre o azul do mar e dos céus!
Os azuis de várias tonalidades para preencher todo o horizonte!
O verde para pintar campos e jardins!O castanho para pintar ninhos e as folhas velhas a caírem das árvores!
O Turquesa para pintar os sonhos e o carinho do abraço de uma criança!
Não tinha o branco, a cor menos usada da minha caixa...Mas eu queria pintar a Paz!
Mas essa é a mais difícil de pintar!
Porque a Paz é algo tão fugidio... o mundo vive em constantes agitações.
O nosso coração também vive sempre ansioso, em conflito ou com medos!
Por isso não fui capaz de pintar a Paz!
Mesmo assim vou enchendo o branco de cores , dando formas, criando sonhos e fazendo crescer fantasias...Com a minha Caixinha de Tintas e com a minha Paleta de azulejo, cheia de cores, vou criando um mundo mágico como uma criança que brinca ao faz de conta.
Eu também viajo entre tintas e pincéis, vejo o outro lado do mundo com o meu olhar ora sereno, ora agitado! Mas é a minha forma de ver o mundo...e deixar entrar a luz em meu coração!
Bem, as minhas tintas estão a chamar por mim...sentem saudades do meu jeito desajeitado...estão cansadas de estar fechadas, mescladas e não serem usadas... Todo o ser humano e todos os objectos querem ser tocados , é uma forma de se sentirem desejados e úteis!
Tenho andado longe delas!!!
Vou dar carinho à minha caixinha e enchê-la de novas cores fortes e doces!...E abri-la de novo como um tesouro!
Elmar
24 Setembro, 2008 07:57 "

Encontrei essas palavras ternurentas escondidas atrás de um comentário da autoria da Elsa. Tomei a liberdade de as trazer para a ribalta e de as partilhar com todos.
Este é também um trabalho de sua autoria, um exemplo vivo do que ela faz com a sua "Caixinha de Tintas".

07 agosto, 2008

Tsunami

Senhor, a noite veio e a alma é vil.
Tanta foi a tormenta e a vontade!
Restam-nos hoje, no silêncio hostil,
O mar universal e a saudade.
Mas a chama, que a vida em nós criou,
Se ainda há vida ainda não é finda.
O frio morto em cinzas a ocultou:
A mão do vento pode erguê-la ainda.
Dá o sopro, a aragem — ou desgraça ou ânsia —
Com que a chama do esforço se remoça,
E outra vez conquistaremos a Distância —
Do mar ou outra, mas que seja nossa!























"Tsunami", um trabalho de Noémia Travassos
com
poema de Fernando Pessoa (em Mar Portuguez- Prece)

24 julho, 2008

"Sou Eu" de Fernando Pessoa

Para apresentar este meu trabalho de nome "Ilha da Madeira", escolhi um dos poemas inéditos de Fernando Pessoa com o qual muito me identifico.

"Sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo,
Espécie de acessório ou sobressalente próprio,
Arredores irregulares da minha emoção sincera,
Sou eu aqui em mim, sou eu.

Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou.
Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma.
Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim.

E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco inconsequente,
Como de um sonho formado sobre realidades mistas,
De me ter deixado, a mim, num banco de carro eléctrico,
Para ser encontrado pelo acaso de quem se lhe ir sentar em cima.

E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco longínqua,
Como de um sonho que se quer lembrar na penumbra a que se acorda,
De haver melhor em mim do que eu.

Sim, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco dolorosa,
Como de um acordar sem sonhos para um dia de muitos credores,

De haver falhado tudo como tropeçar no capacho,
De haver embrulhado tudo como a mala sem as escovas,
De haver substituído qualquer coisa a mim algures na vida.

Baste! É a impressão um tanto ou quanto metafísica,
Como o sol pela última vez sobre a janela da casa a abandonar,
De que mais vale ser criança que querer compreender o mundo
A impressão de pão com manteiga e brinquedos
De um grande sossego sem Jardins de Prosérpina,
De uma boa-vontade para com a vida encostada de testa à janela,
Num ver chover com som lá fora
E não as lágrimas mortas de custar a engolir.

Baste, sim baste! Sou eu mesmo, o trocado,
O emissário sem carta nem credenciais,
O palhaço sem riso, o bobo com o grande fato de outro,
A quem tinem as campainhas da cabeça
Como chocalhos pequenos de uma servidão em cima.


Trabalho de Noémia Travassos

Sou eu mesmo, a charada sincopada

Que ninguém da roda decifra nos serões de província.

Sou eu mesmo, que remédio! ... "